No marco de 14 anos da guerra na Síria, família inaugura cafeteria em Brasília
No marco de 14 anos da guerra na Síria, família inaugura cafeteria em Brasília

Desde 2014, o casal sírio empreende no ramo da gastronomia no Brasil e neste ano inauguraram seu próprio café na capital federal
Catorze anos de conflitos deixam marcas profundas na sociedade síria. Para milhares de pessoas, a guerra significou deixar seus lares para reconstruir suas vidas em um lugar completamente diferente, distante de seus familiares, de seus idiomas e costumes locais. O Brasil tem acolhido sírios por meio da concessão de vistos humanitários desde o início do conflito, assegurando-lhes direitos que garantem a inserção qualificada no mercado de trabalho. Já são mais de quatro mil sírios reconhecidos como refugiados aqui. O país tem sido também referência na criação oportunidades sustentáveis e empreendedoras para profissionais refugiados.
Jana nasceu em Damasco, capital da Síria, e veio com sua família para o Brasil em 2013, beneficiada pelo programa de vistos humanitários para cidadãos afetados pelo conflito. Encontrou em Brasília um lugar tranquilo para criar suas três filhas e começou a empreender vendendo doces em feiras e produzindo encomendas em casa. O marido apoia a tocar o negócio.
Em 2015, a família enfrentou sérias dificuldades financeiras e chegou a pensar em voltar para a Síria. Com a divulgação e com o apoio de amigos, a clientela se fortaleceu. Ela passou a atender restaurantes, padarias e embaixadas. No começo de 2025, inaugurou seu próprio espaço, UniCoffeeLink is external, no Lago Norte em Brasília. Ela bateu um papo descontraído com a gente e contou como conseguiu reconstruir sua vida no Brasil.

Jana foi apoiada por Irmã Rosita Milesi em sua chegada no Brasil e hoje são muito amigas
Qual a memória mais afetiva que tem de lá?
Lembranças das escolas com as minhas amigas e reuniões familiares.
Como foi chegar no Brasil com sua família?
É um a viagem muito longa, para mim eu nunca viria aqui porque é o outro lado do mundo. Foi a primeira vez que fiquei em um avião por 14 horas.
O que te encantou descobrir sobre o Brasil?
A gentileza das pessoas e o amor que elas têm por receber estrangeiros. Eu fiquei chocada com todo esse amor que os brasileiros têm.
O que você faz atualmente?
Eu tenho um restaurante onde faço comidas e também uma cafeteria onde faço os doces.
Qual segredo gastronômico você revelaria para os brasileiros?
Para usar os temperos especiais para cada tipo de comida. Do arroz a carne, cada tipo de comida pede um tempero diferente. Tem vários temperos, só precisa usar.
Qual o sentimento que você tem pelo Brasil?
Tenho muito sentimentos de gratidão. Quero sempre agradecer, agradecer, agradecer tudo o que eles fazem por mim, dão para mim amor, cuidado. Ficaram no lugar da minha família. Hoje eu tenho familiares brasileiros que lembram do meu aniversário, das minhas filhas, mandam mensagem de Natal. Sabe coisa de família?
O que te dá orgulho em sua trajetória de vida?
Tenho coragem e sempre olho para frente.
O que é um dia perfeito para você?
Foi o dia que minhas filhas entraram para a faculdade porque para mim fica muito difícil, eu não imaginei que elas entrariam numa faculdade como a UnB. Uma faz farmácia e a outra estuda para ser diplomata. O dia que recebi o documento brasileiro foi também um grande dia.
Qual música você ouve para relaxar?
Gosto de escutar música árabe para relaxar.
Se você tivesse um superpoder, qual seria?
Gostaria de poder viajar no tempo. Para trás, para frente.
Quem você muito admira e por que?
Para mim, um exemplo é Jesus, porque ele tem o poder do amor e paz. O mundo agora tá precisando muito desse poder que ele tem que é o amor.
Quais são seus planos futuros?
Tenho planos de fazer uma escola, cozinhar, para deixar meu trabalho maior, que as pessoas conheçam mais a cultura da minha comida.
Como você se motiva quando está passando por um momento difícil?
Olho para minhas filhas, para minha família, para minha história de chegada aqui no Brasil. Mesmo refugiada, fugindo de guerra, hoje eu tô como uma brasileira e gosto daqui.
E qual mensagem diria para mulheres refugiadas recém-chegadas ao Brasil?
Descubram os seus poderes. Não fiquem paradas. Se você ama cozinha, ou vender, descubram o que vocês gostam e façam. Muita coragem e amor em tudo que vocês vão fazer.
Qual mensagem gostaria de passar para as lideranças globais?
Deixem as pessoas viver em paz um pouquinho. O mundo está cansado da guerra. Precisamos de paz.